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1 de dezembro de 2016

Desejada solidão

Eu quero o individualismo libertador de um quarto desarrumado,
Quero os pés descalços
E roupas jogadas
A caminho do chuveiro do banheiro.
Quero andar nu
No apartamento solitário
E rabiscar as paredes de tinta
Na estante da solidão.
Eu e eu,
Sozinhos enfim,
No ensurdecedor barulho de um pop
Que só eu gosto
E de uma MPB que só eu ouvi falar.
Contas na mesa,
Chave na cadeira
E o suave odor de mil e um perfumes,
De mil e uma noite que se arrastaram
De mil e um gemidos que não sussurraram
Sob a cama arrumada,
Bagunçada.

Cozinha,
Sala de estar
E escada.
Branco de solidão,
Azul de desalinhada.
Eu e eu,
Só meu
ESPAÇO!
26 de novembro de 2016

Pé no chão

Seus olhos castanhos me enganaram,
Meu coração inexperiente me traiu 
E meu corpo sedento foi à perdição. 
Eu ancorei no deserto, 
Lutando para não me afogar
No vazio de certezas
E na imensidão de mágoas e medos. 
Não deixei as lágrimas caírem,
Mas abracei o chão de pedras,
Certo de que lá era o meu lugar, 
Onde você me deixou. 


Pois bem! 
Atravessarei as dunas,
O vento irá bagunçar os meus cabelos
E a areia machucará os meus pés
Mas ninguém verá o meu sangue. 
Você não verá o meu sangue, 
Porque eu não quero ajuda para estancar a sua ferida. 
Eu quero voar!


28 de setembro de 2016

Notas sobre ele



Tem uma ressaca intelectual que te pega
E te extasia,
Mais do que o toque do corpo
E o balançar ritmado do gozo,
Mas que regozija.
Tem um toque que incendeia
E acaricia,
Alivia
Mesmo em meio a tempestade que define.



25 de setembro de 2016

Seus olhos castanhos


Eu poderia, nestes versos,
Romantizar-te,
Poetizar-te,
Pintar seus olhos castanhos de diamante escarlate
Mas não preciso pintar mais
Gosto dos seus olhos castanhos.


12 de junho de 2016

Histórias de amor. Ridículas




"O amor prefere a luz das velas. Talvez porque seja isto tudo o que desejamos de uma pessoa amada: que ela seja luz suave que nos ajude a suportar o terror da noite. Sob a luz do amor que ilumina modesta e pacientemente, o escuro já não assusta tanto.
-"As Velas", de Rubem Alves


- Eu não sou deste mundo. – revelou, já no primeiro encontro.

O outro sorriu. Um sorriso bonito, uma covinha que embelezava ainda mais seu rosto. Talvez ele concordasse, já naquele momento, mas nada disse. Fez: pegou a mão do outro e aninhou dentro de suas mãos. Olhou dentro dos seus olhos. O amor é tão clichê... Mas não era amor naquele momento. Aquele friozinho na barriga. Beija, não beija. Onde coloco as mãos? Ansiedade, talvez.

Começaram a ler as estrelas. O astro de um era guerreiro, Marte, Ares; o outro tinha como sina a doçura da beleza e da calma de Vênus, Afrodite, talvez. O segundo duvidou, acostumado a interpretar o céu. “Está errado, só pode”. O outro sorria. “Talvez eu seja um guerreiro desarmado”. Não deu outra. Ascendente Câncer. O outro jurava que isso explicava. O filho de Ares só concordava. Tudo que ouvia dizia muito de si.

Os encontros tomaram os dias da semana. Antes, só se viam aos sábados e domingos. Talvez na sexta. Essas coisas a gente não controla. Definitivamente não. Um deles soube. O filho de Ares. Não queria cair. <em>Fall in love</em>. Mas o outro tinha um perfume de tons amadeirados que impregnava a sua roupa e o deixava com um sorriso idiota de canto de rosto quando levava a trouxa para lavar. Tinha uma mania esquisita de dormir com o dedo na boca e esquecer de colocar o cobertor e era tão lindo, tão lindo, tão lindo dormindo e ele sempre olhava e o abraçava e o beijava e o outro nunca acordou. O outro tinha uma cara fechada de raiva que era tão bonita e ele sempre o irritava só para rir. E ria, ria, ria. Caiu de quatro. Cair de quatro não era para ele. Ele não entendia, mas a queda era deliciosamente reconfortante. A gente se acostuma com esse tipo de coisa.

O “outro” nem ligava. Filho de Afrodite, a deusa do amor. Para ele era natural. E por que o amor deveria ser uma luta, afinal? Se era um enroscar suave de corpos, um café quente em uma manhã chuvosa de um domingo friento, um abraço apertado na despedida e uma mensagem de “eu te amo” no meio da aula na metade da semana que não tinha fim.
Mas sempre há a guerra. A trava. "Eu não queria assim". "Você não deveria ter feito isso". Se pudesse os dois apagavam esses incêndios. Aboliam. O passar dos anos gera um passo cadenciado de saber onde não pisar. O meu espaço e o seu. Basta permitir. O amor é isso, né? Permitir. Deixar o outro entrar e não ter medo. Eu não sei você, mas eu sinto falta disso. Um cafuné. Um abraço apertado que sufoca e não solta, por favor, não solta, quero morar dentro desse abraço e você se agarra naquele abraço e o outro se afoga no seu calor. Já deram um abraço apertado, assim, verdadeiro?

O sexo muda, todo mundo dizia. Quem dera soubesse. Com o amor, eu digo. E mudou. Eles aprenderam, afinal. Quais os botões certos. E que a orelha é o ponto fraco de um e que apertar a bunda é quase matar o outro. Dormir de conchinha (antes era tão desconfortável) era a forma sexual mais pura e recompensadora. “Você dorme hoje na minha casa” era um convite ao delírio. Às vezes nem se convidavam. Com o passar do tempo nem precisava mais. Era uma certeza. PRECISAVAM dormir juntos. Depois daquela festa, a noite toda, os corpos cansados. Chegavam em casa e dormiam um em cima do outro. Às vezes os corpos ainda aguentavam mais algum tempo de uma dança maluca de beijos, braços e amassos, mas sempre, sempre, um estava abraçado ao outro, no final. Denominaram “a arte de dormir em conchinha”. Os dois brincavam que um dia colocariam como habilidade no Linkedin.


O senso comum já aceitou que sexo vicia. Depois que começa é difícil parar. Mas são poucos os que assumem que amor é uma droga. Aquele amor de verdade. Aquele que te deixa de quatro, metafórica ou literalmente, e dá aquela saudade. Depois que você experimenta, você nunca mais é o mesmo. E você quer mais. Algumas pessoas se negam, porque está todo mundo assustado, com medo dessa droga. A política anti-amor já fez adeptos demais. Cair de quatro é sinônimo de humilhação. “Eu não sou desse mundo”, já dizia, no primeiro encontro, um dos personagens deste conto. Diz isso sempre quem sente e não tem medo. Que sabe que todas as cartas de amor são ridículas e que só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas, como bem dizia Fernando Pessoa.

27 de maio de 2016

Fachada



Mudado, eu nunca mais fui o mesmo
Você sabe
Eu te odeio
E te amo
Cometo o mesmo erro
Que condeno
O orgulho é fachada
E o prédio já desabou
Você esqueceu:
Acabou!

Cato os cacos
E farrapos
Junto os trapos
Quebro os trapos,
Choro os laços quebrados
Mudaria os versos,
Desesperados, 
Se soubesse se ainda me ama
Porque o amor que tive
Ainda está intacto. 

Quando é que você vem?
Vai deixar a mala lá fora?
E esquecer o que não te convém?
As mãos que não são as minhas,
Que há anos percorrem teu corpo.
Meu corpo, 
Que não é outro,
É o mesmo que se encaixa ao teu
Nas noites de sono.
Esqueceu?
O sorriso que te pertenceu? 
O olhar que te enterneceu?
Os dedos que enrolaram seus cabelos,
Os lábios que molhavam os seus beijos,
O intelecto que o enrijeceu.
Não finja que esqueceu. 
Venha buscar, seu bobo,
Aquilo que nunca deixou de ser seu,
Não se contente com pouco. 


22 de maio de 2016

Chamas



Eu não sei morrer sozinho
Eu não sei morrer sem chamas
Eu não morrerei sem lágrimas.
Queimo, solitário e estranho,
Vazio e incerto.
Cruel destino!
Eu não sei morrer sozinho,
Eu, só cinza, sem carinho,
Fogaréu de sensação.

Olhe o fogo,
Fumaça,
Brasa,
Invisível e indiscreto,
Engana,
Engana,
Engana,
Engana!
Grita e tapa a boca.
Eu não queimo sem arder.
Eu não sei morrer,
mas definho sem calor
sem ter a quem recorrer.
Eu não sei,
não sei, não sei, não sei, não sei
Morrer!
Sozinho
Me deixe arder com você


24 de abril de 2016

Conversas




"Odeio conversa fiada. Quero falar sobre átomos, morte, alienígenas, sexo, magia, intelecto, o sentido da vida, galáxias distantes, as mentiras que contamos, nossos defeitos, os aromas favoritos, a infância, o que te deixa acordado à noite, suas inseguranças e medos... Eu gosto de pessoas com profundidade, que falam com a emoção de uma mente curiosa. Não quero saber do "e aí?" "
9 de abril de 2016

Sede


Foi efêmero, passageiro, eu sei
E eu sou um louco por querer tanto outra vez
Mas sei quem sou
E não sei fugir da minha sede
Pois sei que quem cede pode se saciar.
Fui um tolo? Talvez
Mas quem nunca se arrependeu do que não fez?

É loucura, carência
Talvez
Não precisa repetir o que já incorporei
Mas é os olhos nos olhos
E o toque?
E o laço do meu corpo
No seu corpo
Enlaçado o meu rosto no seu pescoço
O meu braço no seu dorso,
Dois corpos,
Sendo cobertor um do outro.
Isso tudo é pouco?
Pouco o suficiente para eu ainda ser o louco?
Ou é o bastante?
Bastante o suficiente para que aconteça novamente
27 de março de 2016

Vírgulas e pontos finais



Eles se gostavam. Adoravam estar na companhia um do outro. Eram amigos, parceiros. Os dois combinavam. Mas as vírgulas de poréns, contudos e entretantos, devido às coisas que faltavam mas que nenhum dos dois sabiam, colocaram um ponto final na história.