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7 de março de 2012

Assim por acaso



Tudo começou por um acaso. Esbarraram-se na rua e, como eram educados, ambos pediram desculpas. Riram da sincronia. “Não deixou cair nada?”, perguntou um deles. “Não, acho que não”, disse o outro apalpando os bolsos do paletó. Despediram-se, foram embora pelo mesmo caminho. “Aqui, parceiro, não é por nada não, mas por acaso está me seguindo?”. “Que isso, meu camarada, tô indo pro trampo!”

Caminharam juntos, meio desconfiados um do outro. “Começo hoje”, disse o que ‘ia trampar’, puxando papo. “Não brinca? Eu também! Só falta dizer que vai trampar naquele mercado novo...” O camarada trabalhador para boquiaberto. “Somos companheiros de trabalho?” Seguem os dois, dando risada do acaso múltiplo.

Os dois trabalhando no caixa. Quando o movimento tava fraco dava pros dois conversarem. Alan era o nome do “camarada que ia trampar”, o outro era o Luís. “Mas pode me chamar de Luisinho”, disse, num desses papos cruzados.

Alan era o mais novo, jeito e palavreado de malandro, tatuagem de “Amor só de mãe” e barba por fazer. Reclamava do governo, dessa “maldita cidade solitária” e da falta de grana.
Luisinho era o mais velho, mais ressabiado e esperto também. Gabava-se de nunca ter sido passado pra trás. Era poeta nas horas vagas e isso lhe dava uma graninha por fora.

Os dois eram viciados em Nintendinho. “Sério? Achei que ninguém mais curtia!”, era o que o Luisinho pensava. “Que isso, brother. Nintendinho é meu vício! Qualquer dia passa lá em casa que eu tenho umas fitas da hora”.

E assim descobriram que curtiam o cabelo da princesinha, davam risadas das tartarugas e adoravam zombar do Bowser. Viraram companheiros. O aluguel do Luisinho tava caro, o apê do Alan era grande: resolveram morar juntos.

Daí começaram as brigas. Alan era folgado, Luisinho espaçoso e assim os defeitos iam aparecendo. O Luisinho, dia desses, resolveu matar a saudade da “loira” e depois do trampo foi pra um bar. O Alan não foi: tava quase matando o chefão da fita nova que compraram. Luisinha exagerou na bebida e chegou tarde, fazendo aquela bagunça. Alan ainda tava acordado, assistindo TV. E mesmo estando pra lá de Bagdá o Luisinho estranhou o filme esquisito. “Que isso, camarada? Isso não é homem beijando homem?” Alan desliga a TV, cara vermelha, tenta disfarçar falando que é mulher vestida de homem. “Filme americano é assim mesmo!”

Luisinho senta no sofá, pede pra ligar, nunca viu homem beijar homem, coisa mais esquisita. Alan liga, vê o amigo concentrado e confessa que já experimentou. Luisinho, mais pra lá do que pra cá, dá aquele amasso no amigo.

No outro dia, os dois acordam abraçados. No trabalho os dois não falam uma palavra um com o outro. Chegam em casa e repetem o “ato” e o “ato” vai virando rotina.
Luisinho confessa que tá xonado, nunca sentiu algo assim. Alan diz que já olhava o amigo com interesse já faz algum tempo.

Os dois se demitem mas continuam juntos. O Luisinho vira poeta das “horas ocupadas”, pois as horas vagas são só pro seu “chamego”. Alan entra na faculdade, quer ajudar a criar outros Marios, tartarugas e princesas pra unir mais viciados em videogame. Agora faz a barba e tem um moicano vermelho (só pra ser seu Yoshi, camarada, diz ele pro Luisinho) e virou muso oficial do poeta.

E assim, por acaso, saem os dois de mãos dadas. Andam no shopping da ex “cidade solitária”, pra onde foram pra fugir do preconceito e dos olhares furtivos das pessoas da cidade onde os dois nasceram. 

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